Autor: Godofredo de Oliveira Neto
Editora: Record
Páginas: 160
Ano: 2016
Avaliação: 4/5
*Exemplar cedido pelo autor para resenha.
SINOPSE
Construído de forma que a performance e a teatralidade ocupem um lugar central, Grito é o epílogo da octogenária Eugênia e sua relação com o jovem e ambicioso Fausto. Em 21 atos, a narrativa é marcada pelo embate entre as esferas do real e do imaginário. Godofredo de Oliveira Neto experimenta formatos e problematiza a linguagem, conduzindo a partir da perspectiva da ex-atriz de teatro uma trama que transita entre o mundo da criação e da encenação.
"Ele diz se tratar do grito que sua irmã gêmea não conseguiu dar no nascimento. Nasceu morta. Se chamaria Ifigênia de Sá Sintra. E isso liberta ele. Depois virou costume; e a cada situação profissional nova Fausto solta o grito engasgado na garganta da gêmea".
"Grito" tem como protagonista e narradora da história Eugênia, uma ex-atriz viúva de 80 e poucos anos que tem o teatro como principal paixão de sua vida. Seu vizinho, Fausto, tem 19 anos, não consegue parar em um emprego e é tão apaixonado por teatro quanto ela; isso faz com que tenham uma conexão e, a partir desse amor que nutrem em comum, reúnem-se no apartamento de Fausto para produzir e encenar peças. Eugênia possui décadas de experiência e constantemente dá conselhos teatrais ao jovem, por quem é vista com muito carinho, perceptível na forma que a chama: "irmãzinha".
"Ele quer aprender e se preservar, acho isso muito importante. Quer vencer na arte. Para uma veterana do mundo teatral como eu, é extremamente gratificante ver um jovem buscando na arte um sentido para a vida. Queria que isso acontecesse com mais frequência no mundo de hoje".
Eugênia, no entanto, o vê de outra forma: passa a sentir ciúmes excessivo e nutrir um sentimento de posse. Detesta as amigas que ele possui, entra com frequência em suas redes sociais e acha que é a única em sua vida. Sabe que ele possui um passado sombrio, mas sempre que o questiona, ele se recusa a revelar qualquer coisa. Algo indubitável, no entanto, é a determinação que possui em seguir seu sonho de ser ator, mesmo que a profissão não seja bem vista na sociedade.
O livro é dividido em 21 atos, que se alternam entre a narrativa da protagonista e alguns trechos do roteiro das peças teatrais que representa com Fausto ou de obras que encenou há alguns anos. E o interessante do livro é justamente isso: é uma leitura diferente, que nos permite transitar ora pelo universo de Eugênia e Fausto, ora por trechos de peças teatrais encenadas - tanto no passado, como no presente.
Se tratando do mundo dos personagens principais, o interessante é a linha tênue presente no livro entre o que é verossímil e o que não é. Não sabemos se os atos narrados partem de um delírio da personagem ou se realmente aconteceram. Além disso, há uma interação entre Eugênia e o leitor, já que faz perguntas no meio da narrativa como se expressando dúvidas que possivelmente teríamos a respeito dos acontecimentos narrados no livro.
"- De onde sai tanta análise?
De onde sai tanta análise sobre teatro? Da vida, minha filha, da vida. Décadas atuando, pensando e ouvindo gente boa em discussões sobre a arte dramática. Experiências de vida, minha filha, experiências de vida".
A leitura é cheia de referências, como a Goathe, Machado de Assis, Shakespeare e tantos outros, e se ambienta no Rio de Janeiro. Pra mim, foi uma experiência muito diferente - seja por ter como protagonista uma senhora de 80 anos, por ter uma diferença de idade tão grande entre os protagonistas, por ser estruturado como uma peça teatral ou pela história focar em apenas em dois personagens. Isso permite com que os conheçamos mais a fundo - mesmo que Fausto seja apresentado o tempo todo pela perspectiva de Eugênia e, portanto, abra margem à nossa própria interpretação.
Recomendo o livro não apenas a quem gosta de teatro, como também a quem procura uma leitura que flui de forma fácil e possui um final impactante e surpreendente.



