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19 de setembro de 2015

Resenha: Capitães da Areia - Jorge Amado

Esse ano eu estou fazendo cursinho e sim, boa parte dos meus gastos em livrarias agora são destinados às leituras obrigatórias.
Comecei com Viagens na minha Terra e depois, louca por um vocabulário mais próximo do meu, fui para Capitães da Areia.
Eu não sou muito de escrever resenhas aqui, talvez porque eu falo demais, talvez porque não sei fazê-las direito, talvez porque me perco na crítica interessada em recomendar os livros. Enfim, enfim, enfim.
Eu vou tentar.


Capitães da Areia é um clássico brasileiro, pertencente à Segunda Fase Modernista - a chamada Prosa de 30, que possui certo tom de denúncia atrelado aos temas regionalistas, quase sempre retratando os problemas do Nordeste do século XX, relacionados à seca, ao descaso, às disparidades sociais e toda a problemática do retirante.
É uma fase da nossa literatura que, particularmente, possui um tom agridoce aos meus ouvidos, porque ao mesmo tempo que acho de importância extrema que todos esses pontos sejam muito bem escancarados para a população em geral, ainda dói um pouco saber que tantas pessoas já sofreram com a desigualdade que ainda existe em nosso país, dói muito saber que essas mesmas pessoas - responsáveis por erguer tantos e tantos prédios em São Paulo nos quais hoje, se tentassem adentrá-los, teriam grandes chances de serem barrados. Dói MUITO ter que conviver com o preconceito que meus conterrâneos têm com os nordestinos, e dói ainda mais pensar em tudo o que meus bisavós, alagoanos, certamente passaram aqui em São Paulo. Mas ainda mais do que isso, o que dói na alma e abre uma ferida jamais capaz de ser cicatrizada, é saber que ainda há muito o que melhorar em determinadas aéreas do sertão nordestino para que esse povo, tão sofrido, tão julgado, menosprezado e explorado, tenha enfim condições dignas, condições que não poderiam nunca faltar a nenhum ser humano, mas que, infelizmente, são a realidade invisível que boa parte do país prefere não ver, prefere atirar pedras sem nem enxergar o que há por trás do véu, prefere vociferar ignorâncias ao invés de ter o mínimo de empatia.
Dado meu desabafo, vamos ao livro em si.

Capitães da Areia conta a história de meninos órfãos, abandonados, esquecidos e de pouca importância que, em Salvador - a cidade da Bahia, formam um grupo de delinquentes-mirins a roubar, enganar e estuprar pela cidade.
Nele conhecemos alguns desses meninos: Pedro Bala, o líder dos capitães, órfão de pai e mãe - o pai era líder de uma classe de grevistas, é bom salientar. Sem Pernas é coxo e carrega em si toda a raiva de uma criança que já apanhara da polícia, além de enganar moradores de casarões da cidade afim de se infiltrar nas casas para facilitar um posterior roubo. Pirulito prende-se à religião e encontra nela uma forma de conforto. Boa Vida rouba um ali e outro acá, mas sem muito comprometimento aos planos do grupo. Gato é malandro, mente como ninguém. Volta Seca, afilhado de Lampião, sonha em fazer parte do grupo de cangaceiros. Professor é o único que sabe ler, além de ter um talento natural para às artes plásticas. João Grande é corajoso, alto e conhecido por proteger os mais novos. E Dora, ah, Dora, garota que perdeu os pais para a bexiga - varíola, passa a ser uma importante personagem do trapiche, onde todos moram. Além deles, ainda conhecemos o padre José Pedro, que aos poucos se torna amigo do meninos do grupo com o objetivo de fazer alguma mudança na vida deles. Dona Aninha e Querido-de-Deus também fazem parte da vida dos garotos.
O enredo é baseado na história de vida de cada um dos personagens principais e em suas aventuras em Salvador, desde o dinheiro que Professor consegue ao desenhar os abastados do centro até os cínicos discursos de Sem Pernas para comover senhoras em suas mansões. A linguagem é coloquial - marca do Modernismo, e de fácil entendimento. A cronologia dos fatos é facilmente entendida e Jorge Amado fez um brilhante trabalho ao nos aproximar da realidade dos garotos por meio da linguagem e da descrição da cidade e de seus habitantes e costumes.

No meio de suas aventuras, entramos no trapiche e encaramos a vida de crianças que foram obrigadas a abdicar de suas infâncias em nome da sobrevivência. É fácil de engolir as condições nas quais eles vivem? Não. É difícil conter o choro em algumas partes? Sim.
O histórico de abandono e negligência por parte da sociedade, que mostra logo nas primeiras páginas do livro um grande problema da sociedade brasileira até hoje, o que querer medidas imediatistas e paliativas, que não mudam a raiz do problema e apenas o mascaram por algum tempo, é algo que fica entalado em nossas gargantas até a última página, já que nos questionamos a todo o momento onde se perdeu a assistência, a humanidade e a empatia de todos os envolvidos - governantes, civis, filantropos. 
O romance nos traz o lado da moeda que na maioria das vezes não enxergamos quando noticiam um assalto realizado por menores. O fato de que eles são criminosos é romantizado? Não, na verdade é bem escancarado e escrito em letras garrafais, ninguém tem dúvida de que sim, eles estão errados de forma ou de outra, mas Jorge Amado nos traz o que seria uma justificativa para os crimes cometidos, quando repete, inúmeras vezes, que os meninos não têm alternativa, que eles não enxergam perspectiva, que a realidade deles é como a visão de um míope. 
A análise desse contexto vai de cada um, depende de posições ideológicas, conhecimento e visão de mundo e enfim, da opinião mesmo: seriam os garotos os únicos """culpados""" pela situação na qual estão? Seriam """vítimas""" do próprio destino? Poderiam mudar suas vidas? Encontrar outro caminho? Eu não sei. Na realidade, tenho a minha posição quanto a esse assunto muito bem definida, mas prefiro me abster de comentários - por mais que já tenha falado demais, e deixar para uma posterior reflexão de vocês, de preferência, depois de terem lido o livro.
O fator comum é: essa realidade é preocupante. Essa realidade só piora. Crianças que nem mesmo completaram 10 anos de idade hoje podem ser vistas viciadas em drogas pesadas, vivendo sob viadutos e financiando a própria válvula de escape com o dinheiro alheio.
Mas Jorge Amado possuía grande simpatia com os ideais comunistas e ele os usa como a solução do problema denunciado, sempre polarizando a sociedade em ricos opressores e pobres explorados, com a famosa luta de classes que impera na raiva que muitos dos meninos demonstram em suas personalidades. Sim, preciso dizer que a utopia e que o maniqueísmo muitas vezes transbordado das páginas amareladas me deixa um tanto quanto desconfortável, já que foge um pouco do que nós já enxergamos como realidade e constrói um certo clima de solução milagrosa que estaria escrita nas palavras de Marx e acabaria com todos os problemas sociais do Brasil - isso é apenas a minha opinião sobre o assunto, para deixar claro, mas não, isso não tira uma verdade muito bem denunciada: nós precisamos fazer algo. Precisamos mudar essa situação. Não é possível que tenhamos naturalizado o menor infrator, que aceitemos como condição inerente e que agora não conseguimos mais enxergar por trás das grades. Não é aceitável que crianças continuem a perder sua inocência, seu direito de brincar e ir ao colégio, sua licença de não entender o mundo como ele é. Precisamos fazer algo. Agora. Eles também são a nossa responsabilidade, a nossa sociedade, o nosso país, a nossa vida! Talvez você não acredite em mudar o comportamento humano, mesmo se tratando de crianças, mas que tal então mudar a realidade antes mesmo deles entrarem em contato com ela? Vamos nos mover, participar mais de projetos sociais, de projetos políticos que incluem a sociedade, de movimentos que discutem e promovem mudanças. 
No fim, é isso que o autor planta em cada leitor: a desesperadora vontade de mudar a realidade. Eu já comecei algumas pequenas mudanças ao meu redor.
E você?

E aqui está o motivo pelo qual não escrevo resenhas: elas se tornam mais um texto dissertativo do que uma resenha em si #fail.
Mas espero que tenham gostado e que se interessem por esse livro incrível!

Um comentário:

  1. Olá!!
    Adorei a resenha! Parabéns <3

    leitoracretina.blogspot.com.br

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A leitura é uma porta aberta para um mundo de descobertas sem fim. - Sandro Costa

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